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Deixem o Indie em Paz

Mas já nada é sagrado?

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ilustração de Afonso Cruz

 

 

É o título de um belíssimo texto de Salman Rushdie, que faz parte da Granta Portugal 2: Poder (traduzido por António Costa Santos e publicado originalmente na Granta 31, Primavera de 1998). Podia citar praticamente todo o texto, mas o que verdadeiramente me agarrou ao mesmo foi este parágrafo no final da primeira página.

 

É sempre para mim um choque conhecer pessoas sem interesse pelos livros e pessoas que troçam do acto de ler, para não falar nisso de escrever. Talvez seja sempre surpreendente perceber que o objecto do nosso amor não é aos olhos dos outros tão atraente como para nós. (…)

 

Este Mas já nada é sagrado?, de Rushdie, mistura religião e literatura no mesmo texto, de uma forma deveras interessante. Rushdie apresenta, em seu nome, mas pela voz de Harold Pinter, a teoria de que a linguagem é a principal causa da violência (defendida por Arthur Koestler), uma vez que é necessário um certo nível de sofisticação na linguagem para se poder definir conceitos abstractos. Ora, só ao dispormos dessa sofisticação, é que podemos usar da totemização, o que, por sua vez, dará origem a disputas entre pessoas e/ou grupos que defendem diferentes totems. Exemplo disso é o facto das religiões tentarem-se anular umas às outras, fazendo valer os seus textos sagrados em detrimento dos outros, ou seja, totemizam o seu Deus através da sofisticação da linguagem.

Contrariamente à religião, que poderá ser vista como um manual de instruções que contém um conjunto de respostas às grandes questões da nossa existência, algo que considero semelhante às palas colocadas na parte lateral exterior dos olhos de certos animais, o que certamente irá causar um choque com outras mentalidades devido à sua rigidez, a literatura permite-nos dispor de um olhar que pode abranger todos os ângulos que a nossa visão alcança.

A literatura é vista como sendo desprovida de poder sobre o indivíduo e deverá existir apenas enquanto realidade questionável, pois, através das diversas vozes que nela encontramos, seremos críticos quanto ao que nos rodeia, sem termos de obedecer a regras pré-estabelecidas e que podem condicionar o nosso pensamento. Podemos e devemos, assim, questionar tudo o que nos é, à partida, imposto pelos outros como verdade absoluta.

 

Só por isto já valeu a pena ler esta Granta. Gosto tanto quando os textos/autores me deixam a pensar e surpreendida pelo facto de nunca ter visto as coisas pela sua perspectiva, logo eu, céptica-mais-céptica-não-há. “Felizes os que acreditam sem terem visto”? Pois, para mim não dá.